terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Rebel with (out) a cause...




Como eu já mencionei antes, a videoteca disponível aqui no meu apartamento em NY é curiosamente semelhante àquela que o Seu Dilvo vem colecionando há décadas, lá na casa da rua Bernardino. 
Desde menino, tive acesso a esta cultura cinematográfica, mesmo que tenha sido por ouvir os nomes dos filmes e de seus atores e diretores.
Vi muitos deles e ouvi falar de vários outros. Alguns eram proibidos devido à minha tenra idade e só vim a assisti-los algum tempo depois, ainda curioso pelo motivo da proibição.
Outros passaram despercebidos ( ou evitados ? ) por mim e agora estou tendo a chance de me confrontar com vários deles. Foram dois nesta semana: The Godfather e Rebel Without a Cause.
O primeiro chegou ao Brasil renomeado como "O Poderoso Chefão".
Particularmente, detesto os títulos "traduzidos"para o português. Dependendo da voz que anuncia este filme, você facilmente pode achar que se trata de uma comédia pastelão...que aliás, rima com...Chefão !
Pode enganar muita gente. Não fui um deles. Desde menino eu ouvi que "- esse filme é muito violento!".
Eu sabia que era material pra Corujão ( oh, Lord ! ),  e não pra Sessão da Tarde.
Pois bem. Peguei os dois primeiros volumes da trilogia aqui na videoteca e mandei brasa.
Sim, são violentos. Provavelmente mais chocantes na época em que foram lançados. Comparados à explícita "realidade" presente nos filmes de ação de hoje em dia, Godfather fica light. Mas a densidade do filme não fica refém do apelo visual das cenas de assassinatos e, mesmo em 2010, o impacto fica por conta da abordagem do perfil de cada personagem e das profundas e complexas relações familiares. Poder, riqueza, família, amor : conceitos clássicos e eternos, mostrados através de um conto de máfia siciliana.
Atuações brilhantes e direção primorosa. Valeu a espera de sei lá quantos anos.

O segundo filme da semana passou no Brasil como "Juventude Transviada"
- O que é isso, Dan? - perguntou a Cynthia.
- Sei direito não... - respondi e completei: - só sei que meu avô chamou meu pai disso quando o proibiu de escutar o disco do Elvis dentro de casa.
Expressãozinha mais tacanha essa, não ?
"Rebeldes sem causa" teria sido muito mais honesto com os jovens brasileiros da época.
Pelo menos teriam tido a chance de questionar se havia ou não uma causa para a rebeldia.
Enfim... o filme foi estrelado pelo símbolo da rebeldia dos anos 50: James Dean. Aparentemente, os personagens de seus 3 maiores filmes se confundiam com sua própria vida: conflitos de identidade, problemas de comunicação e relacionamentos conturbados.
Não muito fácil de se assistir, "Rebel" tem sérios problemas de edição e continuidade, além de uma direção obscura. Se a intenção era me deixar aflito, o tal Nicholas Ray conseguiu.
Mas a história é rica de situações tensas, todas elas causadas pelos laços familiares, que na verdade são mais nós do que laços.
Imagino que os anos 50 tenham sido o começo de uma grande ameaça para o poder estabelecido até então, fosse ele dentro das famílias ou nos gabinetes do governo.
Toda uma transformação estava sendo fervida para finalmente entrar em ebulição nos anos 60, quebrando regras de comportamento e de cultura.
O mundo deveria ter aprendido com uma explosão daquelas, mas na verdade, todos os dias alguém de 50 anos se esquece que já teve 20; e alguém de 20 explode algo não querendo chegar aos 50.
Nos anos 80 a banda Ultraje a Rigor pegou emprestado o título deste filme para cantar : "meus dois pais me tratam muito bem... meus dois pais me dão muito carinho... como é que eu vou crescer sem ter com quem me rebelar ? ".
Até onde vai o amor dentro de uma família? Quando é que o controle entra em jogo em nome da manutenção de uma cultura e uma tradição? Talvez não tenhamos capangas ou metralhadoras...mas muitas vezes cometemos violências morais e psicológicas contra familiares, amigos ou colegas.

Acho que filmes podem e devem nos fazer pensar.
Sejam eles do Corujão ou da Sessão da Tarde.

all the best,
Dan

2 comentários:

  1. Que isso? Foi estudar música e virou crítico de cinema???

    Abraço, meu velho!
    Saudade das cervejinhas de sexta! E das saideiras na Grega!

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  2. Bem, segundo a psicanálise, é tudo culpa da mãe da gente ;-)

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