"...abre a folha do livro que eu lhe dou para guardar e desata o nó dos 5 sentidos para se soltar".
Beto Guedes cantou hoje aqui no meu quarto e me fez perceber/lembrar o quanto esse som das montanhas me faz arrepiar. Sensação comparável àquela causada pela abertura de Peter Gabriel cantando "can you tell me where my country lies...", porém, fazendo muito mais sentido para as minhas raízes culturais e linguísticas.
Interessante é me dar conta disso de forma tão inflamada, apenas estando tão distante das tais montanhas. Mas acho que é assim que são as coisas.
E Beto não para por aí, mandando um cruzado de direita na próxima faixa e dizendo que "... o medo de amar é o medo de ser livre para o que der e vier, livre para sempre estar onde o justo estiver".
Depois disso percebi que não conseguiria mudar o disco e decidi aproveitar para escrever.
Este álbum do Guedes veio pra mim junto com toda a minha coleção de CD's, que agora reside nos domínios de meu iTunes.
Neste último sábado eu tomei mais um golpe com a terceira despedida que eu e Cynthia fomos obrigados a fazer nos últimos 6 meses. Nada realmente poderia nos preparar para o que é viver esta experiência de distância. A cada goodbye, novas marcas e cicatrizes. Sim, pois romance perfeito em New York só nos filmes melados do Richard Gere. Cada despedida traz no pacote uma infinidade de expectativas, dúvidas, perguntas e acertos de conta.
Mas enquanto me levanto do tatame, me dou conta de que a despedida traz também muitas respostas e sei agora, mais do que nunca, que elas apontam para um caminho iluminado !
By the way, não me importo com cicatrizes... acredito que elas tenham a função de nos lembrar de algo que mereça ser lembrado. Meu joelho esquerdo, por exemplo, me faz lembrar que não é uma boa idéia brincar com facão achando que é o Indiana Jones.
Além disso, eu tenho 5 cicatrizes voluntárias em meu corpo. Cada uma me diz coisas específicas, de determinadas fases de minha vida. Fico pensando se ainda farei outras...
Uau ! de repente me deu uma vontade !!!
Hoje acordei decidido a começar um novo round, com a barra de stamina completa.
Bem disposto e bem vestido, saí pra aula escutando My Morning Jacket. Dentro do metrô fui dissecando cada aspecto de engenharia da gravação daquele disco, sendo interrompido apenas pelo trio mexicano que entrou em meu vagão, esguelando Guantanamera.
Gostei de ter sido capaz de dar risada daquilo, tendo em mente o louco caldeirão de culturas no qual me meti. Digo isso pois já tive dias de intolerância com esta confusão de etnias, principalmente por desconfiar que grande parte da sujeira da cidade é causada pelos imigrantes que entopem os metrôs com péssimo inglês e falta de amor pelo lugar que escolheram para morar. Ao contrário de meus familiares adotivos, os DeSousa, que seguiram um caminho bem diferente aqui: abraçaram o modo de vida americano, trabalharam, criaram muito bem seus filhos que são americanos com orgulho das raízes brasucas. Brasileiros que optaram por construir uma vida nos EUA, mas que respeitam muito o país que os abrigou.
Anyway, o clima hoje estava ótimo, com céu azul e um certo sol. Emergi da estação da 8th Street à caminho da escola, respirando fundo o ar mais ameno do dia. Como todos os dias, passei por dezenas de estudantes que circulam pelo Village, entre a NYU, escolas de música e de cinema. Tomei emprestada a baforada jamaicana deixada no ar por uma dupla mais relaxada, que provavelmente dava um tempo entre uma aula e outra. De alguma forma misteriosa, ninguém se esconde pra consumir a erva aqui em NY. É algo que acontece naturalmente, pelo menos na região artística. Policiamento não falta, mas os cops não se ocupam com isso. Talvez nem devessem mesmo. A NYPD tem coisas mais importantes pra fazer, como me escurraçar por eu ter entrado na cabine errada do pedágio. Uma oficial afro-american em posição de guerra me tratando como um fucking chicano ilegal enquanto eu tentava chegar num longínquo e redundante shopping de outlets. Acha que eu ligo ? I don't give a shit.
Voltando à minha vida de student, cheguei ao IAR sendo chamado de rockstar, o que me deixou ainda mais inflado.
Acho que deve ter sido os sunglasses que finalmente adquiri, depois de passar meses sofrendo com minha nacionalmente ( no Brasil ) conhecida fotofobia.
Finalmente, aulas geniais de sound design, microfonação e posicionamento de amplificadores. Nem mesmo meus barulhentos novos colegas ( futuros fritadores de french fries no McDonalds ) puderam me tirar a atenção deste assunto.
A volta pra casa foi na companhia dos Black Crowes. Nada melhor para fechar o dia de estudos do que um bom rock'n'roll na orelha.
A levantada para o terceiro round já começou.
Ela acontece apoiada em diversos fatores, incluindo a óbvia ocupação de minha mente com os novos estudos; a certeza de que o sacrifício da distância e isolamento trarão recompensas; a intimidade à prova de distância/tempo de um casamento que contraria esteriótipos; a presença virtual dos bons amigos e da boa família; a presença física deles, como a vinda de Seu Dilvo e Dona Dayse em Abril; e porque não... a presença de um novo PS3 pra agitar as horas vagas !
Beto Guedes me ajuda a fechar mais uma edição deste blog com um pensamento que pra mim faz todo o sentido do mundo: "... a lição sabemos de cor..só nos resta aprender. "
All the best,
Dan

O Jimmy podia te apresentar uns conhecidos dele da costa oeste hein?
ResponderExcluirAmar para suportar, para recomeçar, para levantar e voar.
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